
Já parou para pensar que cada pessoa que você cruza na rua, olha no ônibus ou observa pela janela tem uma vida interna tão complexa quanto a sua? Que enquanto você lê este texto, milhões de histórias estão acontecendo ao mesmo tempo? É sobre esse sentimento profundo — que alguns chamam de empatia, outros de teoria da mente, e alguns poetas modernos nomeiam de sonder — que este artigo se propõe a falar.
A Beleza de Observar o Outro
Embora eu não seja a pessoa mais social do mundo, observar gente sempre foi uma das minhas maiores curiosidades. Não observar por fofoca ou julgamento, mas com aquela fascinação de quem entende que cada ser humano carrega dentro de si um universo inteiro.
É impossível imaginar a vida como um palco onde eu sou a protagonista e os outros apenas figurantes. A vida não é um “Show de Truman”. Todos nós estamos estrelando nossos próprios filmes — com alegrias, traumas, vitórias e sonhos únicos.
Como Clarice Lispector escreveu uma vez:
“Cada pessoa é um mundo.”
Fragmentos de Realidade Que Nunca Veremos
Enquanto você lê estas palavras agora, neste exato momento:
- Um bebê prematuro está nascendo, trazendo esperança a uma mulher que achava que nunca seria mãe.
- Um casal está assinando o divórcio e se lembrando do dia em que juraram amor eterno.
- Um jovem acabou de cruzar a rua com a pessoa que um dia será o amor da sua vida — sem saber.
- Uma idosa está se despedindo do marido após 50 anos de companheirismo.
Mais de 8 bilhões de pessoas vivem suas histórias ao mesmo tempo. São bilhões de mundos internos, com dores e alegrias, passando por você, sentando ao seu lado no ônibus, postando fotos que você desliza no feed.
E quantos desses encontros nunca acontecerão?
A Tragédia dos Desencontros
“O que mais existe no mundo são pessoas que nunca vão se conhecer.”
Esse trecho do livro Tudo é Rio resume com precisão esse sentimento de perda silenciosa: quantos amores, amizades e conexões incríveis o acaso não permitiu?
Talvez, enquanto você olhava para a direita, a pessoa que mudaria sua vida tenha passado pela esquerda.
O Fascínio Por Histórias Humanas
Além de observar, sempre fui apaixonado por histórias — tanto ficcionais quanto reais. Talvez por isso gostasse tanto de aulas de literatura e história. Sempre imaginei as cenas acontecendo, como se fossem filmes mentais que me permitiam viver realidades muito além da minha bolha.
Você já parou pra pensar que todos os grandes nomes da história eram pessoas comuns, como você? Gente que sentia medo, preguiça, desejo, tédio. Pessoas que andaram por este mundo achando, em algum momento, que talvez fossem eternas.
A Terra está coberta de ruínas de pessoas que acharam que nunca morreriam.
A Dor de Sentir Demais
Mas sentir profundamente tem seu preço.
Desde 2020, por exemplo, não consigo mais assistir ao noticiário sem ter crises de ansiedade. As histórias reais me machucam porque, para mim, cada nome é mais do que um dado estatístico — é uma vida inteira que se foi.
Falar sobre tragédias humanitárias, como o genocídio na Palestina, me faz pensar em garotas da minha idade que talvez tivessem o mesmo cantor favorito, ou esperassem ansiosamente o final de Stranger Things. Mas elas não terão essa chance.
Não consigo seguir acompanhando. É emocionalmente insustentável.
Como disse Che Guevara:
“Acima de tudo, procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo.”
Sonder: O Nome Para Esse Sentimento
Psicólogos chamam de teoria da mente, os poetas chamam de sonder, e no fim, é tudo sobre empatia.
É entender que cada pessoa tem uma vida tão rica, tão cheia de detalhes e camadas quanto a sua. Não somos “mais especiais” que ninguém. Cada um carrega dentro de si um roteiro único.
Seja um vendedor de esquina, uma influencer milionária ou um andarilho — todos têm seus próprios medos, memórias, traumas e sonhos.
Cultivar esse sentimento é essencial. Para uma sociedade mais justa, sim, mas também para sermos mais humanos.

